O Estado e sua classe trabalhadora, de Yueran Zhang – 29 de maio de 2026

De Phenomenal World

Política de classes na China pós-1989

Em abril de 1989, movimentos pró-democracia eclodiram por toda a China, um fenômeno até hoje pouco compreendido. Nas narrativas convencionais, intelectuais liberais e estudantes universitários de elite são frequentemente retratados como protagonistas principais, mas a verdade é que milhões de operários e trabalhadores urbanos também participaram da mobilização, especialmente nas semanas finais. Inicialmente, muitos deles foram às ruas apoiar os estudantes em greve de fome, mas logo começaram a articular suas próprias concepções de democracia, defendendo a substituição do sistema burocrático pela autogestão dos trabalhadores. Criaram, nos locais de trabalho, organizações independentes e democraticamente geridas, que passaram a publicar panfletos acusando a “burocracia ditatorial stalinista” de alimentar a espiral inflacionária e defendendo que a única solução era colocar o controle sobre os bens de consumo nas mãos de seus próprios produtores. A retórica misturava o discurso da Revolução Cultural com referências a várias outras revoltas históricas. Um dos panfletos mais conhecidos convocava as massas a “tomar as Bastilhas do século XX”.

Entre meados de maio e o início de junho daquele ano, esses setores da classe trabalhadora estavam na vanguarda das mobilizações. Com a declaração da lei marcial e a marcha de regimentos militares em direção a Pequim, um grande número de cidadãos comuns se aglomerou nos arredores da cidade para impedir que as mobilizações fossem suprimidas. Ergueram barricadas, formaram correntes humanas e levaram água e comida aos soldados, implorando que baixassem as armas. Protomilícias armadas foram formadas para monitorar o paradeiro dos militares e garantir a provisão de serviços públicos críticos. Operários organizaram comitês de produção, greves e sabotagens. Circularam rumores de uma greve geral. Pequim quase se tornou um território autônomo, não muito diferente dos sovietes auto-organizados e armados de Petrogrado nos meses entre as revoluções de fevereiro e outubro. Quando, na noite de 3 de junho, o Partido deu início à rodada final de repressão aos movimentos, os trabalhadores reagiram com pedras, pneus incendiados, coquetéis molotov e com seus próprios corpos. Centenas sacrificaram suas vidas.

Recuperar o caráter operário dos movimentos de 1989 lança uma nova luz sobre a história recente da China e modifica nossa compreensão da conjuntura atual do país. Aquele momento marcou uma ruptura fundamental entre duas modalidades de política de classes na China pós-Mao, especialmente no que diz respeito à relação entre o Estado-partido e a classe trabalhadora industrial. Anteriormente, o compromisso político oficial do Estado-partido com a manutenção do status social “soberano” dos trabalhadores, somado ao arranjo institucional da propriedade pública socialista, tornava a classe trabalhadora uma força político-econômica incontornável, capaz de disputar o significado de “socialismo” em diversas dimensões. Após 1989, porém, o Estado-partido mudou de rumo, desmantelando esses dois pilares da antiga ordem. Isso deu origem a uma nova classe trabalhadora industrial, muito mais próxima da imagem clássica de um proletariado explorado em fábricas diabólicas sob o chicote do mercado de trabalho e o despotismo dos interesses privados. Como se deu essa transição? E de que maneira o processo de recomposição de classes na China contemporânea pode afetar as perspectivas de longo prazo dessa grande potência?

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Yueran Zhang é professor assistente de Sociologia na Universidade de Chicago. Sua pesquisa se concentra na área de economia política comparada dos sistemas socialista e capitalista e nos processos históricos de transição entre eles.

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