Crepúsculo bolivariano, de Luis Bonilla-Molina – 29 de maio de 2026

De Phenomenal World

A recolonização da Venezuela

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, enquanto aviões, helicópteros e tropas de elite estadunidenses conduziam a operação que culminou na captura e transferência de Nicolás Maduro para Nova York, o mundo inteiro se perguntava onde estaria a vice-presidente do país. Os rumores eram de que ela se encontrava na Rússia, informação logo desmentida pelo Kremlin. Foi apenas após a retirada das forças americanas que Delcy Rodríguez reapareceu exigindo uma prova de vida do presidente Maduro. Na Venezuela, o dissabor de uma derrota militar catastrófica suscitou dúvidas sobre a possibilidade de uma traição interna ter permitido aos Estados Unidos agir com quase absoluta impunidade.

Horas depois, o presidente Donald Trump anunciou que os Estados Unidos passariam a governar a Venezuela e estavam negociando com as autoridades do país, que se comprometeram a colaborar e a não cometer os mesmos erros de Maduro. Se, em abril de 2002, setores populares e a classe média trabalhadora saíram às ruas para protestar contra o golpe de Estado e exigir o retorno de Chávez ao poder, desta vez prevaleceu a calma—interrompida apenas por uma mobilização reduzida e pouco combativa, convocada e administrada pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

Em 5 de janeiro, a vice Delcy Rodríguez foi empossada como presidente interina por uma medida extraconstitucional definida pela Suprema Corte de Justiça como um ato de força maior. Pouco tempo depois, em 26 de fevereiro, ela afirmou que Donald Trump era amigo e parceiro do país, enquanto solicitava a retirada das sanções para acelerar a agenda bilateral de cooperação. Em apenas dois meses, passou-se da retórica antiimperialista a discursos de superação dos 25 anos de distanciamento entre Washington e Caracas.

Um primeiro balanço da diplomacia trumpista indica que os Estados Unidos controlam todas as alternativas políticas atuais na Venezuela: a pós-madurista representada por Delcy Rodríguez, a da direitista María Corina Machado e a do centrista Enrique Márquez. De qualquer forma, a presidente interina, que há poucos meses era braço direito de Maduro, hoje se comporta como a operadora local da Estratégia de Segurança Nacional e do Corolário Trump.

Essa nova situação política pode ser analisada a partir das principais dinâmicas internas vividas pela Venezuela desde a Revolução Bolivariana até a transição entre o chavismo e o madurismo, que deu continuidade a um modelo rentista sob a égide de uma nova burguesia—o que explica a vulnerabilidade da Venezuela ao imperialismo estadunidense e o próprio faccionalismo dentro do governo e das elites.

Após 12 anos de madurismo, a esperança parece ter superado o anti-imperialismo. O apelo da esquerda revolucionária pela formação de uma ampla frente anti-imperialista, embora justo, não obteve o eco esperado. É um momento sombrio para a soberania do país. Por mais incerto que o futuro seja, está claro que a intervenção norte-americana e a capitulação do governo venezuelano marcaram o fim da Revolução Bolivariana.

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Luis Bonilla-Molina é acadêmico venezuelano e professor visitante da Universidade Federal do ABC, em São Paulo. Durante o governo de Hugo Chávez, foi presidente do Centro Internacional Miranda, vice-ministro de Educação Universitária e fundador do Centro Internacional de Pesquisa Outras Vozes em Educação. Foi presidente do Conselho de Governo do Instituto de Educação Superior para a América Latina e o Caribe (IESALC) da UNESCO. Suas pesquisas abordam os temas de educação e processos pedagógicos, assim como política venezuelana e sua relação com a América Latina e os Estados Unidos.

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