Em 11 de maio, o recém-reformado Centro Cultural Atatürk, em Istambul, sediou o primeiro Fórum Mundial de Descolonização. O evento foi organizado por uma coalizão de instituições turcas, como a Fundação NÛN para Educação e Cultura e o Instituto de Estudos Sociais, em parceria com entidades internacionais, incluindo a Universidade de Xangai e a Academia Russa de Ciências. Os organizadores turcos compartilhavam um traço comum fácil de identificar: vínculos diretos de propriedade com o ex-ministro das Finanças, Berat Albayrak, e sua esposa, Esra Erdoğan Albayrak, filha do presidente.
O local escolhido já transmitia uma mensagem por si só. O Centro Cultural Atatürk situa-se à sombra da Mesquita de Taksim, um projeto que líderes conservadores almejaram por décadas e que Erdoğan finalmente concretizou. Da mesma forma, o fórum foi concebido para servir de base intelectual ao posicionamento geopolítico de longa data de Erdoğan: o de que a Turquia não é apenas uma crítica da ordem global dominada pelo Ocidente, mas a pioneira na construção de uma alternativa a ela.
A agência estatal Anadolu resumiu essa ideia em uma frase que funciona quase como um lema nacional: “O mundo é maior do que cinco” (uma referência aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU). Tratava-se também de uma declaração sobre questões internas. Os conservadores turcos passaram décadas argumentando que o poder cultural, kültürel iktidar, permanecia nas mãos do establishment secularista e kemalista. Este fórum serviu, entre outras coisas, como palco para afirmar que essa situação havia finalmente mudado.
Foi Esra Erdoğan Albayrak quem abriu o evento. Seu discurso foi longo e bem elaborado, abordando com agilidade temas como as perspectivas anticoloniais e crises contemporâneas, incluindo a retórica genocida de políticos israelenses, o legado da exploração imperialista no Sul Global e uma menção passageira à “Ilha de Epstein”, que oscilou entre a crítica geopolítica e o tom sensacionalista da imprensa de tabloides.
Um momento específico destacou-se por razões distintas. Albayrak argumentou que a descolonização exigia também a libertação do homem branco, retratando os colonizadores como corresponsáveis pelo fardo que a história lhes impusera. É uma tese contra a qual Frantz Fanon dedicou a vida a argumentar. Amílcar Cabral também se opôs a ela. Toda a tradição cujo vocabulário o fórum tomou emprestado posicionou-se contra essa ideia. O discurso não pareceu captar essa tensão.
Para lotar o salão, os organizadores haviam trazido estudantes do ensino médio local em ônibus. Os adolescentes passaram a sessão conversando, navegando em seus celulares e fazendo o barulho habitual de pessoas que foram instruídas a se sentar em um lugar desconhecido, por motivos que jamais lhes foram explicados. Quando o discurso terminou, eles se levantaram e saíram em massa, e o auditório atrás deles ficou visível e repentinamente vazio.
Como acadêmico curdo radicado em Istambul, eu estava presente. Já participei de fóruns desse tipo o suficiente para reconhecer a arquitetura de legitimidade controlada que este evento também demonstrava, desde a curadoria cuidadosa dos palestrantes até os funcionários posicionados em todas as portas para impedir a entrada de pessoas com bebidas, mobilizados em um número que sugeria algo além de um simples protocolo de hospitalidade. O que eu não havia previsto foi o que aconteceu quando Mireille Fanon Mendès-France subiu ao palco.
Fanon é jurista e ex-especialista do Grupo de Trabalho da ONU sobre Afrodescendentes. Ela também é filha de Frantz Fanon e carrega essa linhagem com peso e precisão. Ela já falou publicamente sobre como seu pai permanece, na prática, em uma lista negra na França. Apresentou uma queixa ao Tribunal Internacional de Justiça em nome das vítimas da Guerra de Gaza de 2008–2009. Suas credenciais anticoloniais não são meramente decorativas, fato que os organizadores sabiam quando a convidaram.
Ela falou em francês. Eu ouvia a tradução simultânea para o inglês, cético quanto à forma como os intérpretes turcos lidariam com um assunto tão sensível. Durante a maior parte de sua fala, a plateia estava com ela. Ela concentrou-se em questões contemporâneas, como o apoio do governo dos EUA a Israel, a situação no Irã e no Líbano e a necessidade de uma solidariedade anticolonial genuinamente global. Os aplausos eram frequentes e calorosos.
Então, ela disse, calmamente, que a verdadeira descolonização exige introspecção e que a Turquia também precisaria fazer uma autocrítica sobre o tratamento que dispensa à população curda, analisado sob a mesma ótica colonial que o fórum aplicava a todas as outras situações.
O silêncio que se seguiu não foi um silêncio de reflexão. Era o silêncio de uma sala se recalibrando. Ela terminou sua fala e sentou-se. A atmosfera não se recuperou.
Durante a sessão de perguntas e respostas, um jovem francófono foi convidado, não apenas chamado, mas convidado, a subir ao palco. Outros participantes precisavam levantar a mão ou aguardar a passagem de um microfone itinerante. Ele foi chamado à frente duas vezes. Leu um texto preparado, palavra por palavra, com extremo cuidado. O texto estava repleto de referências políticas turcas de âmbito estritamente local, incluindo nomes, eventos e contextos que não se poderia esperar que qualquer acadêmico internacional visitante conhecesse. O objetivo não era o esclarecimento; a intenção era sobrecarregar, ressignificar Fanon como uma estranha que havia falado sobre assuntos que desconhecia. Quando ele terminou, os aplausos foram imediatos e estrondosos. Não eram aplausos que se seguem a um argumento, mas sim aqueles que se seguem a um veredito.
Eu fui uma das poucas pessoas que se aproximaram de Fanon após o painel. Disse-lhe que, como curdo, eu estava grato por ela ter dito o que disse, naquela sala, em Istambul. Ela me contou que não estava surpresa com a reação. Disse que sentia que precisava, simplesmente, fazer o que era certo.
Ali mesmo, vi-me contando a ela sobre um evento a que comparecera três semanas antes, a poucos quilômetros dali.
Em 24 de abril, eu havia me juntado a membros da comunidade armênia em Şişli para uma cerimônia em memória do genocídio de 1915. O grupo era pequeno. A presença policial, não. Éramos superados em número, numa proporção de cerca de três para um, por policiais de choque armados com equipamentos de controle de multidões; eles estavam posicionados em bloqueios que impediam transeuntes comuns de atravessar a rua para se juntar aos presentes. Era aquele tipo de esquema de segurança que não protege um evento, mas o contém. A lembrança que me vinha à mente repetidamente era a de Hrant Dink, o jornalista armênio assassinado a tiros em uma rua de Istambul em 2007, cujo assassino, um adolescente, foi posteriormente fotografado ao lado de policiais que o tratavam como uma celebridade, e não como um suspeito.
Não disse tudo isso a Fanon. Mas aquilo ficou comigo, e permanece comigo até hoje. O intervalo entre essas duas cenas, a cerimônia cercada pela tropa de choque em abril e o fórum de descolonização em maio, é de menos de vinte dias e alguns quilômetros. O Estado que mobilizou aqueles policiais em Şişli foi o mesmo que trouxe, de avião, acadêmicos de todo o mundo para discutir a perspectiva dos oprimidos e a necessidade de reparações históricas.
A prova, se é que ainda era necessária, surgiu logo após o encerramento do fórum. O Ministro da Educação Nacional da Turquia anunciou uma revisão curricular. A expressão “a questão armênia”, que já constituía uma minimização burocrática, será substituída nos livros didáticos por uma unidade obrigatória intitulada Asılsız Ermeni İddiaları, ou “Alegações Armênias Infundadas”. A política otomana que impulsionou as deportações deixará de ser chamada de Lei de Relocação; passará a ser denominada Lei de Reassentamento.
É nesse contexto que se realizou o Fórum Mundial de Descolonização. É também nesse contexto que os aplausos àquela réplica ensaiada contra Mireille Fanon ganham um sentido diferente. Nessa perspectiva, a descolonização é uma postura voltada para fora, por meio de críticas às estruturas de poder ocidentais, à arquitetura da ONU e ao colonialismo de povoamento em Gaza. Mas não funciona como um espelho. No momento em que se torna um, os aplausos cessam e os organizadores entram em cena.
Para nós, que observamos tudo isso de dentro desses espaços, a lição não é nova, mas torna-se cada vez mais urgente. A direita agora organiza conferências sobre descolonização. O vocabulário da esquerda foi apropriado.
O vocabulário da libertação é durável e transferível. Pode ser adotado por qualquer Estado disposto a investir nos oradores e na iluminação adequados. O que ele não consegue suportar, por muito tempo, é a presença de alguém que insista em direcionar a análise para ambos os lados simultaneamente.
Foi isso que Fanon fez. Foi por isso que ela permaneceu quase sozinha quando a sala se esvaziou. O intelectual e ativista do Sul Global deve estar disposto a ficar só e a ser alvo de isolamento para proteger o vocabulário da libertação das mãos de políticos de direita.
Azad Welat é acadêmico radicado na Turquia.
O original em inglês deste artigo foi publicado inicialmente em The Amargi e é republicado aqui com permissão. Esta tradução em português foi publicada inicialmente no Ruptura.
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